" Todos iguais... uns mais iguais que os outros"




Prof. Lucas Adriel S. de Almeida
Redação d' O Historiante



No mundo cada vez mais egocêntrico em que vivemos, o respeito à diversidade social e a pluralidade cultural é cada vez menos comum. Sustentada, dentre outras coisas, numa ideologia capitalista - que produz e/ou se apropria de bens culturais para comercializá-los em série - esta perspectiva produz e reproduz visões deturpadas da realidade como um todo.  Além disto, incentiva uma visão cada vez mais condicionada e que, por não raras vezes, marginaliza o outro.  Esta concepção homogênea da sociedade, pautada num egocentrismo e fruto de um processo de alienação, consiste numa agressão a liberdade e a individualidade humana. Produzindo, portanto, um processo de exclusão que condena as diferenças.
A questão do Enem do ano de 2002, com base no diálogo presente em tirinha de “Hagar o terrível”, propõe analisar a postura adotada por Hagar. Analise atentamente a questão:




De acordo com a história em quadrinhos protagonizada por Hagar e seu filho Hamlet, pode-se afirmar que a postura de Hagar
a) valoriza a existência da diversidade social e de culturas, e as várias representações e explicações desse universo.
b) desvaloriza a existência da diversidade social e as várias culturas, e determina uma única explicação para esse universo.

c) valoriza a possibilidade de explicar as sociedades e as culturas a partir de várias visões de mundo.
d) valoriza a pluralidade cultural e social ao aproximar a visão de mundo de navegantes e não-navegantes.
e) desvaloriza a pluralidade cultural e social, ao considerar o mundo habitado apenas pelos navegantes


Refletindo sobre este tema, não consigo deixar de remeter o pensamento a uma leitura que fiz, já há alguns anos atrás. Refiro-me ao texto “O Ritual do corpo entre os Sonacirema”, do antropólogo norte americano Horace Miner Mitchell. O trabalho de Mitchell nos ajuda, de forma simples e objetiva, a ter um olhar mais apurado sobre as diversas formas de ser e estar no mundo.  Pode funcionar como um ponto de partida para um debate sobre as diferentes leituras de mundo, vistas por nós muitas vezes com constante preconceito e demasiado distanciamento. Nesse sentido, o conhecimento sobre o outro e, portanto, sobre nós, se torna algo fundamental na formação de qualquer indivíduo.
Assim sendo, a disciplina de história tem papel fundamental neste processo. Desde o estudo dos primeiros agrupamentos humanos, passando pela compreensão dos mais diversos aspectos, das mais diversas civilizações, deste as Antigas - a exemplo dos Mesopotâmicos, Egípcios, Hebreus, Persa, entre outros – até as atuais. Problematizar as diferentes formas de organização social, política, econômica e religiosa a partir dos conceitos que fundamentam o olhar histórico como as noções de tempo e espaço nos abre a oportunidade do afastamento de uma postura egocêntrica,  avançando para uma postura de respeito as diferenças e a diversidade cultural. Ao mesmo tempo em que aprofundamos a nossa compreensão sobre quem somos e nosso lugar no seio desta diversidade.
Alguns exemplos da ideia trabalhada acima,  podem ser sentidos na compreensão que temos da nossa própria sociedade. Quando se fala  em “índios”, por exemplo, é comum incorrer no erro de entender a rica diversidade de povos indígenas brasileiros, como uma unidade generalizante composta por penas, arcos e flechas. Ao contrário do que habitualmente é pensado, os diversos povos indígenas no território que hoje conhecemos por Brasil, formavam um lindo mosaico cultural, uma rica diversidade, hoje esfacelada pela presença européia ao longo dos últimos cinco séculos, mais mesmo assim ainda existente.


Outro exemplo fundamental para compreender quem somos, remete a nossa herança africana. O erro mais comum é entender também o continente africano como um país, um único agrupamento de pessoas com hábitos e costumes idênticos. Esta visão decorre de uma formação eurocêntrica, que estigmatizou e depreciou as demais culturas não europeias.  Enxergar a África sob este prisma, menospreza a sua diversidade, além de folclorizar as heranças culturais provenientes das civilizações africanas. Esta concepção nega, inclusive, o reconhecimento do processo de luta e resistência dos povos africanos que aqui foram escravizados. Tal perspectiva,  marginaliza as influências culturais dos diversos povos africanos, reduzindo-as, na maioria das vezes, a pratos típicos,  ritmos ou danças.

 Bumba-Boi

Fundamentado no conhecimento histórico e de forma mais ampla numa perspectiva transdisciplinar, a proposta aqui é quebrar em nós, por meio do conhecimento, muitos posicionamentos de estranheza com relação a outras civilizações. Despertar a capacidade de entender o mundo a partir de uma visão plural da realidade que nos cerca, em todos os seus aspectos, praticando assim, uma noção mais aprofundada da ideia de liberdade e respeito às diferenças. Pensar desta forma, não significa deixar de ter uma opinião particularizada sobre os mais diferentes aspectos da existência humana e muito menos deixar de expressá-la. Consiste, antes de tudo, em reafirmar nossa identidade sociocultural em meio à diversidade, permitindo ao outro o mesmo direito. Consiste, em síntese,  em perceber que hierarquizar culturas ou nos pretender iguais em meio a diferença, na verdade (como fala a canção) torna " uns mais iguais que os outros".


A prova do Enem que contém a questão presente no texto pode ser encontrada no link: http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2002/2002_amarela.pdf

A música mencionada no texto é ninguém = ninguém, da banda Engenheiros do Hawaii, presente no álbum: Gessinger, Licks e Maltz, lançado pela BMG no ano de 1992.

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